quinta-feira, 14 de junho de 2007

Al Berto 1948-1997

20 de janeiro de 1985
Não há riso naquilo que escrevo. almoço sozinho. chove, é preciso cultivar a solidão. nada me dói e ninguém bateu à porta. não há riso no dia a dia, e isto nada tem de angustiante ou de literário. encosto a cara às vidraças da imensa janela, surge a visão duma ilha. são muitas as horas com a cara encostada aos vidros, olhando o mar, olhando-o até que desapareça. a noite desce e esconde a paisagem em soluços de sombra. e esconde-me de meus próprios pensamentos. um escuro tão espesso que ao passar uma mão pela outra não as sinto. é no instante fulgurante em que já não possuo corpo, nem sentimentos, nem desejo algum, que surge a escrita: essa mentira. escrever é um modo falsamente inofensivo de nos suicidarmos. um dia esquece-se tudo, escrevemo-nos. no fundo, sou um homem sentado, a escrever, num recanto inacessível do meu próprio corpo.

in O MEDO
de Al Berto

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